Uma outra coisa que encontrei desde as primeiras pesquisas deste projeto foram trabalhos sobre os contos de fada e a formação da estrutura psicológica. Após tanta pesquisa, acho que entendi mais ou menos o por quê...
Não se trata do foco deste trabalho, mas acho interessante dar pelo menos uma pincelada no assunto antes de concluir a pesquisa. Assim como as características estruturais do Propp, os aspectos metafóricos dos contos de fada parecem ser determinantes na sua definição - pelo menos, é um ponto comum entre todos eles. Tanto quanto o fantástico das narrativas.
Achei até uma teoria sobre a formação (metafórica) dos contos de fada, influenciada pela obra do C. Jung (um dos primeiros a estudar o papel do inconsciente nas pessoas e na formação de sua psiquê, junto de Freud).
"A origem dos contos de fadas, segundo Marie Louise Von Franz , parece residir em umArquétipo é uma coisa complicada mas, grosso modo, seriam a personificação de algum impulso natural do ser humano, a tendência a fazer ou não alguma coisa (como um inconsciente coletivo), inerente à todos. Segundo entendo, os contos de fada se originam eles mesmos destes arquétipos, inconscientemente representando-os em seus personagens... e daí o fascínio que exerceriam.a potencialidade humana arquetípica (aliás, não somente os contos de fada, como todas as fantasias). Antigamente os pastores, lenhadores e caçadores, passavam bom tempo de suas vidas sozinhos nas florestas, campos e montanhas. Acontecia que repentinamente eram assaltados por uma visão interior muito forte, que os alvoroçava por inteiro. Corriam então de volta a suas aldeias e relatavam o que lhes tinha acontecido a todos que o quisessem ouvir. Daquela visão inicial, iam-se formando lendas, e mais tarde “contos maravilhosos”. O pensamento mítico, no caso dessas visões espontâneas, é compreendido como um pensamento essencialmente pré-lógico, elementar e arquetípico. Os arquetípicos por definição, são fatores e motivos que ordenam os elementos psíquicos em imagens, de modo típico."

"Como afirma Jung , os contos de fada constituíram através dos séculos instrumentos para a expressão do pensamento mítico, perpetuando-se no tempo por desempenharem uma função psíquica importante relacionada ao processo da individuação: através deles toma-se consciência e vivencia-se arquétipos do inconsciente coletivo. Esses arquétipos, por sua vez, ao serem trazidos à consciência e dramaticamente vivenciados permitem a Psique cumprir as etapas de integração progressiva do desenvolvimento da persona, conscientização da sombra, confrontação com a anima / animus e outros arquétipos, e finalmente atingir um estado onde a comunicação Ego-Self seja fluente e criativa."Individuação é o processo no qual cada um consegue se firmar como um entidade que é parte de um todo, mas única dentro dele.
Os contos de fada, como representações destes arquétipos, ajudariam a criança (principalmente) a lidar com ele e desenvolver mais satisfatoriamente o contato com estas suas facetas interiores (leia aqui a descrição sobre alguns dos arquétipos de Jung). Não foram pensados com esta função mas a atenderiam, inconscientemente.
O que explicaria seu sucesso e identificação com as crianças (não só) com estes textos. E possivelmente a sua sobrevida, tanto tempo depois dos irmãos Grimm. Afinal, há que se ter algum motivo para a identificação e apreciação de histórias que não contam com elementos contemporâneos e que jamais parecem datadas (possivelmente por essa eterna presença de arquétipos em todos nós).
"Os contos de fadas são narrativas simbólicas extremamente simples, primitivas, capazes de transmitir experiências subjetivas complexas e vivências emocionais delicadas às pessoas mais ingênuas e às crianças."
As ditas semelhanças estruturais também possuem uma semelhança gritante com a Jornada do Herói, a jornada cíclica presente em todos os mitos e que seria uma mescla entre os ditos arquétipos e os ritos de iniciação - que configuram a passagem para outra etapa da vida e que, psicologicamente, servem como marco do fechamento de um ciclo individuação. (leia sobre ritos e iniciação. Aqui há um artigo antropológico que ajuda na questão também).
Repetindo, como contos orais, estas características podiam não ser necessariamente pensadas, mas se encontravam presentes nos contos de fada "clássicos" desde o princípio. O recolhimento das características morfológicas deles tem, sim, relação com estes pensamentos.
Quem diria que o trabalho começaria gramático e terminaria com estudos de psicologia... mas é uma questão central para os contos de fada. Mereceria um maior aprofundamento e estudo, que não cabe neste blog por escapar à sua proposta inicial, que acredito estar satisfeita.
Leia aqui alguns artigos sobre os contos de fada e a sua relação com a psicanálise:
(utilizados também para a elaboração deste texto, integral e parcialmente)
Pulsão oral e contos de fada
A verdadeira moral da história (da Superinteressante, é um apanhado introdutório)
Contos de fada na escola (reportagem superficial)
O papel dos contos de fada (já linkado, mas repito aqui pelo contexto)
Contos de fada ensinam (...) a lidar com seu medo
Contos de fada: (...) metáforas da vida humana (com uma tabela legal do simbolismo n'A Bela e a Fera)
Fantasia e os contos de fada
Psicanálise e contos de fada (um artigo da Marilena Chauí, não o livro)
Quem quiser que conte outra (review de uma exposição que conta com um relato sobre como as mudanças dos Grimm e outros não modificaram a essência das histórias)
Talvez alguns outros tenham sido lidos durante o andamento do blog, mas para o estudo específico da questão não foram consultados.

Deu muito trabalho fazer essa pesquisa, mas gostei bastante de todo o caminho e do resultado final! Muitos outros pontos poderiam ser aprofundados, porém acredito que O QUE É UM CONTO DE FADAS eu já descobri. E sequer imaginava qualquer coisa a esse respeito, muito menos o que acabei descobrindo! Foi bem divertido.
Achei interessante a quantidade de artigos pertinentes que encon trei disponíveis na rede - uma gama de revistas, ensaios e publicações de faculdades. Nem só de wikipedia vive a internet! Embora, para ser justa, tudo que li dela se verificou em outras fontes (acho que basta algum cuidado com ela).
Mas, depois dessa pesquisa, acho que meu encantamento pelos contos de fada aumentou ainda mais... e encontrei uma série de indicações de livros que vou ver se consigo ler (mulheres que correm com os lobos, a psicanálise dos contos de fada e a série he-she-we, de início).
Até mais ver...
Um beijo!


Maíra, achei excelente seu PA, nem sei como intervir... O que fazer para melhorar, porque ele está perfeito no meu ponto de vista!
ResponderExcluirAdorei seu tema, aprendi muito com ele também e acredito que depois que vc responder algumas perguntas que deixei aki pelos posts, aprenderei mais ainda...
Mas vc escreveu de uma forma muito interessante que nos leva a querer continuar a pesquisa, ou melhor, nos faz querer que você continue a postar pra gente poder continuar lendo!!!!
Vc se saiu uma blogueira de primeira! rs
Parabéns!!!
Bjs