sexta-feira, 9 de julho de 2010

Alguns contos de fada celtas

Conforme prometi aqui, vai uma lista dos "contos de fada" que constam na coletânea de contos do povo celta. Foi com aspas porque, pelo que minha pesquisa mostra, eles são os pais, não exatamente os contos de fada em si. Mas falo mais sobre isso no final:

Os filhos de Lir - conta a história dos dito-cujos, filhos de um rei que são amaldiçoados e transformados em príncipes. No final, eles são destransformados, mas... morrem a seguir. Ahn.

Jack, o ladrão esperto - é a história de um rapaz muito esperto, que vence diversos desafios (como consgeguir um cavalo ou carneiros - valendo-se de sua inteligência para elaborar uma série de truques como fingir-se de enforcado e, no final, casa-se e vive feliz para sempre.

Powel, o príncipe de Dyfed - conta a vida do próprio, a partir do momento que se apaixona por uma mulher misteriosa que aparece na colina mas que nenhum cavalo é capaz de alcançar enquanto anda (o assunto é resolvido quando Powel pede a ela que pare, por favor).

Paddy O'Kelly e a Doninha - Paddy encontra uma doninha que, na verdade, era uma bruxa. Por conta dela faz amizades com duendes e obtém objetos como um saco de ouro que jamais se esvazia ou um jarro que jamais seca. Vive feliz para sempre.

O Cavalo Negro - de três príncipes herdeiros, o mais novo fica com apenas um burro velho, e o troca na estrada pelo Cavalo Negro que ninguém quer. Mas trata-se de um cavalo encantado, com o qual o príncipe cumpre muitas missões complexas como trazer uma taça de prata que está depois de uma montanha de fogo e uma montanha de neve. Por fim, o príncipe casa-se com a princesa dos gregos e descobre-se que o cavalo era o irmão dela, que se destransforma após todos os perigos.

A visão de MacConglinney - um rei passa a sentir tanta fome que começa a devorar toda a comida do reino. Um sábio, para curá-lo, amarra-o na cadeira e conta sobre sua visão de uma terra cheia de comida, até que um demônio faminto sai do corpo do rei, em um exorcismo moderno, e é morto.

O sonho de Owen O'Mulready - é a história de um rapaz que deseja ter sonhos, tem um pesadelo e nunca mais deseja outros sonhos. O curioso deste conto é a menção de Maria e José na fala dos personagens, indicando que com toda a certeza é uma história após a cristianização do povo celta.

Morraha - meio complexa, pois coloca uma história dentro da outra de maneira confusa, é a história de um rei que tem todos os filhos roubados ao nascer e estes lhe são devolvidos pelo herói da trama, auxiliado por uma raposa ("o cão ruivo") e pela sua espada de luz.

A história da família McAndrew - é a história de sete irmãos burros ao extremo, e como após a morte dos pais são enganados pelo vizinho e perdem tudo (seu último tostão é doado para que ele "encontre seus pés", pois todos se sentaram juntos e são incapazes de achar qual é qual).

O fazendeiro de Liddesdale - é o conto de um misterioso lavrador que consegue, de forma sobrenatural, cultivar todas as terras de um grande fazendeiro em troca de "tudo que couber em um feixe de cipó". Ao terminar, ele fabrica um feixe gigante com todos os cipós, o fazendeiro prestes a falir fala alguma coisa e - não entendi bem este pedaço - o lavrador misterioso explode, junto com a plantação.

A princesa grega e o jovem jardineiro - é uma história na qual um rei não quer que lhe roubem maçãs e manda o jardineiro resolver o problema. Seus filhos tentam, o mais novo dele faz amizade com uma raposa encantada e assim cumprem muitas missões (a raposa consegue levá-lo na velocidade do pensamento a qualquer lugar e o moço é meio desajeitado, tendo de buscar cada vez mais outras coisas para que consiga levar a primeira). No final, a raposa tem a cauda cortada (como o cavalo negro tem a cabeça) e descobre-se que ele era o irmão encantado da princesa. O príncipe-raposa se casa com a princesa de Grécia e o jardineiro com a filha do rei do começo da história.

O cão ruivo - conta as espertezas da raposa, o tal cão ruivo, que passa a perna em todos, até ao final ser morta pelo caçador. Parece a união de várias histórias de esperteza envolvendo a raposa.

Cabeça pequena e os filhos do rei - uma mulher teve uma filha, mas tornou-se viúva e tornou a se casar, tendo outras duas filhas que odiavam a meia-irmã mais velha (hum). As duas meninas é que chamaram a irmã de Cabeça Pequena, porque a achavam burra. Mataram a própria mãe, que apareceu para a filha na fora de um gato e a orientou a cuidar bem das irmãs. Cabeça Pequena salva as irmãs de diversos problemas, incluindo uma bruxa. Desta bruxa Cabeça Pequena rouba a espada de luz e um livro mágico, e graças a isso consegue bons casamentos para as irmãs. Ao final, descobre que a mesma bruxa cria um porco que é na verdade um príncipe e o desencanta. O príncipe se esquece de quem ela é, mas ela consegue lembrá-lo usando um feitiço, e então casa-se com ele e vive feliz para sempre.

DAÍ ESTIVE PENSANDO...



Há ainda mais mais uma meia dúzia de contos no livro, mas vou me abster porque são todos mais curtos e não apresentam nada de muito diferente dos acima - são histórias sobre como alguém obteve um galho encantado, ou as maravilhas que aconteceram ao que visitou a terra dos gigantes. Recomendo a leitura, mas estes exemplos foram o suficiente para me fazer refletir.

Uma coisa meio nada a ver, mas que achei legal, foi aparecer a Grécia nos contos. Já que o povo celta era contemporâneo (aparentemente), gostei de ver que achavam aquela cultura importante. Mas agora sobre os contos em si...

Com exceção
do conto do Jack (que parece muito com o Pedro Malasartes) e da história dos McAdrew, todos os outros contos tem magia e elementos sobrenaturais, mas nenhum deles conta propriamente com FADAS. Há algumas bruxas e alguns encantamentos cujo autor não é citado, mas fadas propriamente não. Até o conto que é só da raposa tem uma raposa que fala.

Os animais encantados são uma constante, como as raposas e as doninhas, e as pessoas que são animais também (a princesa e o sapo, oi?). Propp já tinha me alertado, mas inclusive a raposa e o cavalo são o mesmo tipo de personagem - irmão do rei -, tem o mesmo encantamento e se curam da mesma forma - cortando a cabeça ou a cauda fora. Até a poderosa espada de luz aparece em duas histórias diferentes.

Vocês podem ver aqui que na história da Cabeça Pequena usam o mesmo ardil de se esquecer e se lembrar da promessa de casamento através de feitiços que tem nas artes da Branca Flor (eu li essa história em uma coletânea do círculo do livro, a mesma onde tem o príncipe papagaio que a princesa precisa gastar sete sapatos e saias de ferro para desencantar).

Inclusive, a Cabeça Pequena tem uma semelhança óbvia com a Cinderella e com a Vasalisa, de um conto popular russo que eu não lembro aonde li pela primeira vez.

No livro da Branca Flor também tinha a história que o Pedro Malasartes encontra com um santo na estrada, ajuda ele e pede em troca pra fazer uma figueira, um saco e um banquinho dos quais ninguém pode sair sem permissão e passa a perna no diabo, a ponto dele se recusar a receber o Malasartes no inferno (evidentemente, essa história foi criada depois do Cristianismo). Acho que encontrei o tataravô das espertezas dele nos contos do Jack!


Uuufa, acho que por hoje chega...

Mas a verdade é que estes contos celtas não me parecem exatamente "contos de fada" como conhecemos hoje... mesmo que muitos deles apresentem elementos que identifico nas histórias. Terão "evoluído" deles? Ou eu estou confundindo a cópia com o original?

Acho que a origem dos contos de fada ainda precisa de um pouco mais de investigação.

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